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nov 21, 2017

Feira Maria italiana, vem ai … em homenagem a uma moradora que fez historia na cidade

Com o intuito de fomentar, valorizar e divulgar os artesãos, artistas e comerciantes locais e da região, nasce em nossa cidade a Feira Maria italiana, que terá sua primeira edição dia 03/12 no espaço Margarida Rosa (HELTHA), às margens da Rodovia Francisco José Ayub. Um espaço privado com total infraestrutura e aberto ao público, oferecendo lazer, cultura e gastronomia diversificada. Os mais velhos sabem quem foi a homenageada, mas você jovem? Sabe quem foi Maria Italiana?

Nossa reportagem, com a ajuda de familiares, conseguiu detalhes importantíssimos dessa mulher, como o seu nome de batismo, cidade natal de seus pais, local de nascimento, vida religiosa e ofícios. Dedicada e muito a frente do seu tempo, “Maria Italiana” contribuiu muito com o desenvolvimento de nossa cidade.

Nas próximas linhas você fará uma viagem pela linha do tempo na vida de Antonia Rizzi, ou, simplesmente, a “Maria Italiana” de Salto de Pirapora.

No ano de 1892, os jovens Rosa Parizzeli (18 anos) e Tomazzo Rizzi (23 anos), ela nascida em Sant’Apollinare e ele em Cervaro (lê-se Tchervaro), ambas pequenas cidades próximas de Cassino, região do Lazio, província de Frosinone, Itália, casaram-se na cidade de Sant’Apollinare. Tomazzo trabalhava na construção e revestimento de fornos e, por este ofício, viajava sempre ao Brasil, em idas e vindas. Rosa, que sempre ficava na Itália, em 1896 veio ao Brasil, pela primeira vez, já grávida, ao encontro do seu esposo Tomazzo, que naquela oportunidade trabalhava na cidade de Ribeirão Bonito, região próxima a São Carlos/SP, onde em 11/02/1896 Rosa veio a dar a luz a uma menina, registrada por Tomazzo como Antonia Rizzi. Rosa não gosta do nome escolhido pelo esposo e passa a chamá-la de Maria Rizzi. Quando Maria estava com 4 anos de idade, no ano de 1900, a família toda volta à Itália onde o casal tem a segunda filha, Francesca Rizzi.

Igreja onde os pais de Maria se casaram

Na Itália, desde muito jovem, Maria ajuda a família na lavoura e na rotina do campo alimentando animais e, até mesmo, na construção de casas, ofício que o pai desempenhava desde sempre. Cervaro, por localizar-se junto a principal estrada, que até a capital Roma, tinha acesso ao sul do país, principalmente a Nápoles – via Appia – estava muito sujeita às guerras e campanas, motivos que causaram grandes destruições na localidade. Naquela época, a Itália passava por grande miséria e, na contramão da fome e do analfabetismo, Maria aprende a ler e escrever.

No ano de 1913, Maria Rizzi (17 anos) casa-se com Luigi Canale (20 anos), que trabalhava como lavrador e com tropa de animais. Quando iniciou a Primeira Guerra Mundial, em 1914, Luigi Canale foi convocado – deixando a esposa Maria, já com a primogênita Angela Maria Canale, ainda bebê nos braços – permanecendo durante toda a guerra, cujo conflito terminaria somente em 1919.

Entretanto, em todo este período bélico, era costume quando as tropas estivessem próximas aos vilarejos, onde os soldados residissem, estes poderiam ser dispensados para ver as suas famílias. Este fato acabou proporcionando que Maria engravidasse de mais duas filhas, Rosa Canale e Elvira Canale.

Com o término da Primeira Guerra Mundial, em 1919, a Itália, que já passava por muitas dificuldades sociais e econômicas, viu crescer enormemente os seus problemas, ficando a população com poucas alternativas de trabalho e renda.

Casa que a família viveu na Itália, ainda com pés de uvas

Na época, com as boas notícias vidas da América, especialmente do Brasil que necessitava de mão de obra, diante da abolição da escravatura e, facilitava a entrada de estrangeiros – no ano de 1922, Luigi Canale, a esposa Maria Rizzi e as filhas Rosa Canale (5 anos) e Elvira Canale (3 anos), embarcam para o Brasil, deixando na Itália a filha mais velha Angela Maria Canale (9 anos) aos cuidados da avó Rosa Parizzeli Rizzi.

Após 30 dias da longa viagem, o navio atracou na cidade de Santos, litoral de São Paulo. Luigi Canale e família, seguem para a região de São Carlos, interior de São Paulo, onde já havia um grupo de italianos, trabalhando na implantação de malha ferroviária, destinada ao transporte de café, numa localidade denominada de Estação de Luiz Carlos que ficava próxima da cidade de Ribeirão Bonito, onde nasceu Maria Rizzi. Lá, a família permaneceu por 5 anos.

Corria o ano de 1927, Luigi, Maria e filhos, vieram para Salto de Pirapora, onde acabaram se radicando pois, o pai de Maria, Tomazzo Rizzi, já trabalhava em fornos de cal, usando de sua experiência e conhecimentos adquiridos e trazidos da Itália. Também, associado aos trabalhos com os fornos, Tomazzo empreendeu a produção de carvão vegetal, no município de Pilar do Sul, especialmente no bairro da Saudade que, na época, havia a exploração das matas do sertão.

Assim, estando Luigi Canale, sua esposa Maria e filhas definitivamente instalados em imóvel próprio em Salto de Pirapora, chamam Rosa (mãe de Maria e Angela, a filha mais velha), que vindas da Itália, completam a família.

Em Salto de Pirapora, com muito trabalho, prosperam e aumentam a família. Aqui nasceram Antonieta Canale (Nena), Benedita Canale, Maria Canale, João Canale e Elias Canale.

Um dia, enquanto trabalhava, Tomazzo cai de um forno de cal, sofrendo múltiplas fraturas. Permaneceu por dois anos acamado, antes de falecer.

Após a morte de Tomazzo, Maria assume o trabalho nos fornos de carvão, no bairro da Saudade, em Pilar do Sul, alternando as suas atividades. Unida, a família segue unida trabalhando tanto em Pilar do Sul, quanto em Salto de Pirapora. Na Itália, Francesca Rizzi perde o filho na guerra e, pouco tempo depois, seu esposo. Sem mais perspectivas, resolve também vir também ao Brasil, para encontrar os demais parentes.

Antonia Rizzi, nome de batismo de Maria, em pouco tempo se torna conhecida. Por ser muito comunicativa e tratar bem as pessoas com quem tinha conhecimento, bem como por exercer a liderança nas atividades da família, estando a frente dos negócios, logo passou a ser chamada e conhecida na cidade como Maria Italiana. O primeiro imóvel que Maria Italiana adquiriu em Salto de Pirapora, foi do senhor Agenor Leme dos Santos, o primeiro prefeito da cidade, com quem manteve longa amizade e era chamado por ela de compadre, visto que o mesmo foi padrinho de batismo e casamento de Benedita Canale, uma de suas filhas.

Casas construídas por Maria italiana e o filho Elias

Muito a frente do seu tempo Maria Italiana segue adquirindo mais imóveis e terrenos onde, com a ajuda do seu filho caçula Elias Canale, construiu várias casas.

Maria Italiana era amiga do padre, que também era italiano, e o recebia em sua casa para fazer companhia para a família nos almoços de domingo. Solícita, na mesma casa, Maria passa a receber evangelistas da cidade de Cachoeirinha, estado de Minas Gerais, para realizar reuniões de evangelização. Sua casa, localizada na rua dos morros (atualmente rua Vicente Ferreira dos Santos) ficava lotada.

Segundo consta nos registros oficiais da Congregação Cristã em nossa cidade, Maria italiana foi batizada pelo irmão José da Costa. Ainda de acordo com os registros, no mesmo dia mais 14 pessoas foram batizadas. Já considerada irmã, Maria italiana é lembrada até os dias de hoje, por ter sido a primeira mulher a se converter e ser batizada na Congregação Cristã em nossa cidade, no ano de 1932.

Luiggi Canale (Luiz Canale) e esposa Antonia Rizzi Canale (Maria italiana)

Maria Italiana, com a ajuda do seu esposo, filhos e familiares teve uma vida confortável, fruto da labuta de uma vida inteira.  A família permaneceu completa até 13/04/1956. Nesta data, seu esposo Luiggi falece em um acidente de carro enquanto viajava com um de seus genros para a cidade de Curitiba, no Paraná. Luiggi, que em nossa cidade ficou conhecido como Luiz Canale, deixou a esposa Maria Italiana e os filhos.

Maria é lembrada até hoje por ter sido uma mulher direita e dedicada ao bem.  Mesmo durante a velhice, ela permaneceu uma mulher ativa. Além do crochê e cuidados com a horta, dedicou-se a levar o evangelho para cidades vizinhas e por onde passava. Registro de familiares mostram que até no estado do Rio de Janeiro ela esteve visitando, sempre levando a palavra de Deus. Participante ativa do desenvolvimento da vila que virou cidade, Maria Italiana faleceu no dia 01/05/1970 aos 74 anos de idade, deixando saudades no coração dos seus filhos, netos, familiares e todos que a conheceram. Seu legado de prosperidade, determinação, perseverança e fé jamais serão esquecidos. O reconhecimento de sua importância está em nome de rua e em uma escola de nossa cidade, que leva o nome dado a ela por sua mãe: Maria Rizzi Canale.

Para nós, do Jornal da Cidade, é uma oportunidade impar em poder registrar a história dessa ilustre moradora. Agregando conhecimento para a nova geração e, em especial, às mulheres que até então nunca tinham sido referência nos livros dedicados a história de nossa cidade.

Passaporte de Antonia Rizzi Canale (Maria italiana)

Sempre que procuramos algo sobre a história de uma cidade, seja na fundação e desenvolvimento, geralmente nos deparamos com homens e seus cavalos desbravando as matas e fazendo futuro. Em nossa cidade temos o orgulho em mostrar que ANTONIA RIZZI, mais conhecida como MARIA ITALIANA, representa tantas outras inúmeras MARIAS, ANTÔNIAS, JOANAS e tantas outras que viveram e vivem em nossa cidade. Histórias tão especiais quanto a dela, ainda que não conhecidas por todos, mas que tiveram sua importante participação na evolução da vila, que mais tarde se tornou a nossa cidade de Salto de Pirapora.

Que estas linhas sejam motivo de orgulho, uma forma de manter sua memória viva e registrada, para que nunca se perca.

Reportagem: Jornal da Cidade – Levantamento histórico: Vanessa Goes – Acervo de fotos e historia: Ivanira Batista (neta de Maria italiana)

Revisão de texto: Luciano Diniz Camargo

Idealizador da feira: Felix Canassa

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